Poucas instituições conseguem atravessar décadas mantendo relevância, prestígio e, principalmente, influência direta na formação de uma cidade. Em Patrocínio, o Colégio Dom Lustosa é, sem exageros, um desses pilares. No próximo dia 15 de fevereiro, a tradicional instituição completa 99 anos desde o início de seu primeiro ano letivo, em 1927, consolidando-se como um dos maiores símbolos educacionais e culturais do município.
A história do educandário começou oficialmente com 57 alunos, sob a direção do padre holandês Matias van Rooij. Ao lado dele, integravam o corpo docente o também holandês padre Filiberto Braun e os professores brasileiros José Bento Guimarães e Aguinaldo Servulo Botelho, este último, posteriormente, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Nascia ali o Ginásio Dom Lustosa, que, ao longo das décadas, se transformaria em uma verdadeira era educacional, sendo considerado, até o final dos anos 1960, uma das melhores instituições de ensino de Minas Gerais em sua categoria.
Entretanto, a história do colégio começou antes mesmo da abertura das aulas. Em setembro de 1925, durante visita pastoral a Patrocínio, o bispo Dom Antônio de Almeida Lustosa, da Diocese de Uberaba — à qual o município pertencia — mobilizou lideranças locais para viabilizar a construção de uma escola católica. A iniciativa, segundo registros da época, foi motivada também pela preocupação com o avanço de instituições protestantes financiadas por organizações norte-americanas.
A concretização do projeto ganhou força em setembro de 1926, quando a Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e Maria foi escolhida para assumir a direção da futura escola. Naquele momento, a congregação possuía apenas uma residência no Brasil, localizada em Água Suja, atual Romaria. Patrocínio se tornaria a segunda cidade a receber a instituição, abrindo caminho para novas unidades em diferentes regiões do país.
Ainda em 1926, durante o Congresso Católico realizado na cidade, o padre holandês Eustáquio van Lieshout assinou o contrato de doação do prédio onde funcionaria o colégio, adquirido do coronel Marciano Hilário Ferreira Pires, na Rua Afonso Pena. Pouco tempo depois, os padres Gil van Boogart e Matias van Rooij chegaram ao município, inicialmente hospedando-se no tradicional Hotel Globo, enquanto organizavam a estrutura para o início das atividades escolares.
O entusiasmo da comunidade marcou a abertura do primeiro ano letivo, em janeiro de 1927, evento celebrado com festas e grande participação popular. Em poucos meses, a procura pelo ensino oferecido pela instituição cresceu rapidamente, saltando para 70 alunos já no segundo semestre daquele mesmo ano. No mesmo período, novos religiosos holandeses reforçaram o corpo educacional, demonstrando o compromisso da congregação com o desenvolvimento do projeto pedagógico.
O reconhecimento local também veio rapidamente. Em novembro de 1927, o então prefeito de Patrocínio declarou o Colégio Dom Lustosa como escola municipal, em uma homenagem ao impacto que a instituição já exercia sobre a comunidade.
O crescimento foi constante. Em 1928, o colégio iniciou seu segundo ano letivo com 98 alunos e inaugurou o internato, modalidade que permitia aos estudantes residirem na própria escola. Honorato Borges de Paiva tornou-se o primeiro aluno interno, abrindo caminho para uma tradição que atraiu estudantes de diversas cidades da região. No mesmo ano, o colégio ainda participou da formação de uma escola voltada ao ensino feminino, que seria inaugurada em 1929.
Outro marco importante foi a incorporação do Ginásio ao Tiro de Guerra, transformando-o também em Escola de Instrução Militar, além da manutenção de um rigoroso processo seletivo para ingresso dos alunos, conhecido como Exame de Admissão — uma espécie de vestibular que perdurou até a década de 1960.
Em 1929, o Dom Lustosa firmou parceria com a Escola de Comércio de Santa Rita do Sapucaí, ampliando sua grade educacional com o curso comercial.
Talvez o maior reconhecimento da excelência educacional tenha ocorrido em 1930, quando o colégio conquistou a equiparação ao Colégio Pedro II, do Rio de Janeiro, então considerado o melhor do país. Para alcançar tal feito, foram necessários intensos esforços administrativos e pedagógicos, incluindo o cumprimento de rigorosas exigências do Departamento Nacional do Ensino, além de um significativo investimento financeiro para a época.
A conquista repercutiu amplamente e consolidou o Dom Lustosa como referência educacional em todo o Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro. A partir daí, a instituição continuou ampliando suas atividades, criando grêmios literários, esportivos e científicos, promovendo intercâmbios culturais e fortalecendo a formação integral dos estudantes.
Nos anos seguintes, o colégio seguiu acumulando conquistas acadêmicas, culturais e sociais, contando com a atuação de diversos religiosos holandeses e professores brasileiros que deixaram marcas profundas na história educacional de Patrocínio e região.
Um momento decisivo ocorreu em 1960, durante a gestão do padre Venâncio. A Congregação dos Sagrados Corações, alegando dificuldades para manter o Colégio Dom Lustosa, assim como outras instituições de ensino sob sua responsabilidade, optou por encerrar as atividades educacionais para concentrar esforços nos seminários e nas paróquias. No ano seguinte, em 1961, o colégio foi entregue à comunidade patrocinense, que adquiriu a instituição e passou, provisoriamente, sua supervisão ao bispo da Diocese de Patos de Minas — à qual a paróquia de Patrocínio estava vinculada — garantindo a continuidade do ensino e evitando prejuízos aos alunos, até que uma solução definitiva fosse estruturada.
Durante esse período de transição, o Dom Lustosa foi dirigido pelos padres José Antônio e pelo professor Franklin Botelho, designados pelo bispado para assegurar o funcionamento da escola.
Em 1963, por meio da Lei nº 2.875, de 25 de setembro, a instituição passou a integrar o sistema público de ensino, mantendo inicialmente a mesma denominação, sendo posteriormente rebatizada como Escola Estadual Dom Lustosa.
Já em 1º de março de 1964, foram iniciadas as aulas sob a direção de Olímpio Garcia Brandão, marcando uma nova fase administrativa e pedagógica para a instituição. Poucos anos depois, em 1967, o colégio ampliou sua oferta educacional com a criação do 2º grau — atual ensino médio — implantando o curso científico, voltado à preparação dos estudantes para os exames vestibulares e consolidando ainda mais sua relevância regional.
Ao completar 99 anos, o Dom Lustosa ultrapassa a condição de instituição de ensino e se firma como patrimônio histórico e afetivo de Patrocínio. Mais do que formar alunos, a escola ajudou a formar cidadãos, lideranças e profissionais que contribuíram diretamente para o desenvolvimento do município.
Às vésperas do centenário, celebrar o Dom Lustosa é, sobretudo, reconhecer a importância da educação como alicerce de uma comunidade. Uma trajetória que honra o passado, permanece viva no presente e segue projetando o futuro de inúmeras gerações patrocinenses.
Informações Acervo Museu, Coluna Eustáquio Amaral, Grupo “Patrocíno que eu vi”, Professores, Rede Hoje e POL.
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